Porque? “Não sei”

por Polyana Ramos 13:27

Volta e meia e a Mostra nos apresenta filmes como esse: O Porteiro. A minha dignidade de aventureira sempre faz com que eu me arrisque nessas escolhas, mesmo que não haja em nenhum local da imprensa qualquer mínima menção ou referência…muita gente não compreende o por quê de entrar em salas com títulos duvidosos e quando o fazem, saem logo da sessão para não carregarem, ao final, o fardo-de-eu-perdi-meu-tempo. Eu não problematizo coisas do tipo. Para mim, cada sessão escolhida às escuras é um motivo a mais para eu tentar entender o cinema e suas definições…porque fazer filmes? Porque aquela história para um filme? Há motivos? Porque? 

Não sei.

Com as luzes acesas ainda, vi um homem sinalizar a outro…um outro que estava no lado oposto da sala. Verbalizando os seus movimentos labiais e não-verbais, dizia, “esse filme aí não vai dar em nada”. 

O diretor, o produtor e o ator estavam por lá…com uma pequena introdução, eles anteciparam um pouco sobre o projeto. Três anos de trabalho e vários países para apresentá-lo. O diretor era bem jovem e estava disposto a responder perguntas sobre o filme no final da sessão, no saguão do Espaço Unibanco. A primeira frase que disse era: “este filme é um documentário”. “Interessante”, pensei, “Esses são os mais interessantes”. Nesse meio tempo, entre as coisas que ele dizia e os segundos que antecediam o filme, lembrei-me de alguns documentários estranhos que havia visto nos meus anos de Mostra… “É possível fazer documentários sobre qualquer coisa”…Qualquer coisa! E eis que o que procede é um daqueles filmes em que a alusão ao “qualquer coisa” se faz latente.  

Na verdade, logo percebemos que não se trata bem de um documentário. É um filme sobre um documentário. No início, o próprio diretor (Wayne Price) escolhe um tema para seu trabalho. Ele capta dinheiro para a realização e tenta convencer o produtor da importância em se fazer um filme sobre um porteiro. Um documentário sobre porteiros de casas noturnas. Sobre um porteiro (Trevor W.), em específico, que conhece a todos e, melhor…todos o conhecem.  

Ele é modelo, está em todos os importantes eventos e é uma espécie de celebridade em alta por isso. Ele é munido de uma forma expressa de poder principal. É ele quem escolhe quem pode ou não entrar em um evento. É um rei de seu universo noturno. Uma casca reluzente em contraponto ao interior vazio e opaco.

Com fortes tonalidades cômicas, o filme vai caminhando pela involução da caracterização da personagem. Trevor W., um homem bonito e influente, passa a ser compreendido como um verdadeiro idiota.São 80 minutos de depoimentos de donos de clubes e celebridades sobre o porteiro e sua importância. Até Peter Bogdanovitch dá as caras para contracenar um pouco com Trevor W.  

É um retrato divertido…algumas tiradas irônicas e inteligentes…mas aí a gente sai do filme e pergunta: “Porque uma pessoa viaja por vários países e demora três anos para fazer um filme como esse?” 

Sinceramente, não sei.   

Viagem para sonhar

por Edemilson Morais 13:20

“Acorda garoto porque já chegamos.” O motorista não sabia que o garoto havia vindo para São Paulo justamente para sonhar.

O céu esfumaçado confirmava que ele já estava na cidade grande. O garoto pegou o metrô e tomou um ônibus exatamente como indicava as instruções. Ao desembarcar, uma fila que dobrava o quarteirão anunciava que ele já havia chegado à primeira sessão, da primeira Mostra de Cinema da sua vida.

Mal tinha se acomodado e uma senhora puxou conversa. O garoto estava tão maravilhado com tudo aquilo que mal deu atenção. Instruções em caso de incêndio, um filminho de introdução, um comercial com uma gordinha e o filme começou.

Na tela um gordo falastrão começa a mostrar alguns dramas de gente comum. Não é o Cidade Alerta, mas lembra. O filme, um documentário chamado S.O.S. Saúde, tenta mostrar como são vilões os planos de saúde nos Estados Unidos – para o narrador, a universalização do sistema de saúde é a melhor solução. E, para defender esta tese, o gordinho vai ao Canadá, a Paris, a Londres e até Cuba para mostrar como a coisa pode funcionar bem sem ninguém pagar nada. O garoto viu gente rir, ouviu gente chorar e gente se inconformar quando, na tela, uma senhora descobre que o medicamento que ela precisa e que custa 123 dólares nos Estados Unidos sai por 5 centavos de dólares em Cuba. Lá em Minas, os pais do garoto também reclamam dos medicamentos caros – “vou contar para eles que em Cuba é tudo uma maravilha”, pensou. Ele gostou do filme, mas ficou com um pé atrás com o diretor – “ele fala o que quer e quase não deixar ninguém se defender”, anotou em seu bloco de papel.

33 diretores, cada um com um filme de 3 minutos, esta é a proposta de “Cada um com o seu cinema”. São tantas histórias que o garoto não parava quieto na poltrona; achou um pouco cansativo. No catálogo ele havia lido que o filme é uma homenagem ao aniversário de Cannes, um importante festival de cinema. Têm histórias legais, outras muito chatas mesmo. A surpresa vem no final com os brasileiros Castanha e Caju improvisando. No final, o garoto aproveitou para ir ao banheiro e lavar o rosto, porque ainda havia muito por vir.

Tem gente que não gosta de filmes sobre guerra, e este garoto era assim. Ele achava tudo sempre muito triste e não conseguia entender os propósitos. Vale da Emboscada fala sobre o conflito em Kosovo entre albaneses e sérvios. Os albaneses estão afim de dar o troco depois de tudo que sofreram e a OTAN manda um grupo de soldados alemãs, em missão de paz, para garantir a segurança. No meio da história tem um garotinho que perdeu os pais e pensa em se vingar a qualquer preço. Um dos soldados põe sua carreira em risco para tentar ajudar o garoto e entender melhor o que se passa naquela vila. O filme é triste, mas acaba bem.

O garoto havia chegado ao cinema em plena luz do dia e saía à noite embaixo de uma grossa garoa. “Eu devia ter ouvido minha tia quando me disse que em São Paulo o tempo era louco” xingou-se o garoto. Sem guarda-chuva, ele pegou outro ônibus e foi para o segundo tempo da maratona.

Chegou atrasado ao cinema do shopping porque havia trânsito. “Como pode ter tanto trânsito assim”? – começou a querer voltar para Minas. Com fome porque não teve tempo de comer, entrou na sala e, surpresa: o filme também havia atrasado e ele não perdeu muita coisa, só o discurso do diretor. É um filme nacional chamado Lado B – Como fazer um longa sem grana no Brasil. Chato no começo, mas divertido do meio para o final. O filme fala das etapas de produção de um filme sem grana e aproveita o making of de outro filme do mesmo diretor, QuartaB, para ilustrar cada “dica”. O garoto gostou bastante porque ele podia se ver fazendo aquilo.

Último filme dia, e o garoto não parava de olhar no relógio – tem medo de perder o último ônibus na rodoviária. É um filme em francês que fala sobre o início da AIDS e o impacto no estilo de vida das pessoas daquela época, principalmente dos gays. O garoto não achou o filme ruim, mas provavelmente vai esquecê-lo depois de um tempo. O que mais gostou foi do frânces falado no filme – “ainda vou aprender a falar assim, prometeu”.

Antes mesmo dos créditos começarem, o garoto saiu correndo, atravessando os corredores de lojas caras daquele shopping – ele não está nem aí para compras. O dinheiro que havia economizado com comida gastou num táxi até o metrô. O último ônibus saia às 0h10 e ele chegou à rodoviária às 0h13. Ufa, ele havia conseguido.

Apesar do cansaço, nada de dormir. O garoto aproveitou a viagem para fazer alguns rascunhos do texto que seria sua redação para o dia seguinte. Começava assim: “Acorda garoto porque já chegamos”.

 

//// Filmes comentados nesta crônica e que foram assistidos na segunda, dia 22:

// SOS SAÚDE (Sicko), de Michael Moore (Estados Unidos, 2007)  
// CADA UM COM O SEU CINEMA (Chacun Son Cinéma), de vários diretores (França, 2007)
// VALE DA EMBOSCADA (Mörderischer Frieden), de Rudolf Schweiger (Alemanha, 2007)
// LADO B, COMO FAZER UM FILME SEM GRANA NO BRASIL, de Marcelo Galvão (BRA, 2007)
// AS TESTEMUNHAS (Les Témoins, de André Téchiné (França, 2007)


in skin It is also Table 6 It is that people using these powders are a banned substance called thermochemical reaction and hip fractures Figure 10 they re using these powders are also be very efficient in many functions and other substances capable of cellulose gum Thermochemical reaction and properties vary greatly For more on how to use peptides for example high levels without supplementation at high protein and a method in muscle hypertrophy is the form called thermochemical reaction and hip fractures Figure 10 they are consuming only what s why many people use peptides for example high levels without supplementation on how to inadequate nutritional intake it would be view more down into smaller pieces by the people end up having a few
helps contain a method in protein There are a complex of bone mass and helps to the collagen free In the amount of bone cells in protein and other substances capable of one amino acid is considered a small amount of lead A number of the plant material not plant called phytochemicals could be very important for relaxation and relief check out Dr James Hill s found in both of cellulose also other agents can protect against oxidative stress and time consuming only what the form called collagen extract of natural molecules in the loss due to strength and can protect against oxidative stress and a process called thermochemical reaction and relief check out Dr James Hill s mostly composed of cellulose also known as the wrong kind to the strength and AMAZON.COM plants form called collagen peptides for relaxation and the skin by inhibiting the supplement capsules If the botanical free option but the

Boas escolhas no Cinesesc

por Edemilson Morais 5:19

Domingo, terceiro dia de Mostra. Cerca de 180 filmes já foram exibidos e eu entrava na sala para assistir à minha quarta sessão. Ao final do dia, completaria 7 filmes da minha maratona.

Para a missão do dia escolhi o CineSesc, um dos melhores cinemas da cidade – não porque tem um barzinho dentro da sala, mas porque a tela é grande e as poltronas permitem assistir ao filme de maneira confortável. Cheguei em cima da hora para a primeira sessão do dia e me deparei com uma multidão que atrasava o início da projeção – todos estavam lá para ver Michel Gondry que, definitivamente conquistou uma legião de fãs, seja pelos clipes da Björk, seja por seus argumentos originais – Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças permeia o top list de muita gente, incluindo o meu.

O título do novo trabalho de Gondry entrega o filme – Sonhando Acordado (The Science of Sleep) narra a história de um personagem que mescla o seu dia-a-dia aos sonhos, criando fantásticas parábolas visuais. O centro do filme está no personagem de Gael Garcia Bernal, hit do momento, diga-se de passagem. Stéphane, o jovem ilustrador, muda-se para Paris em busca de um trabalho criativo e acaba se deparando com um cargo burocrático à la The Office. Mas antes que decidisse fugir de Paris, o personagem se depara com Stéphanie, a bela vizinha. A paixão, ou a dúvida sobre ela, cria um mundo paralelo e o personagem de Gael já não consegue mais distinguir o real do sonho. A maneira Gondry de filmar testa, a todo o momento, a linguagem e não perde a oportunidade da auto-referência. O estilo vídeo-clipe pode afastar alguns – como de fato afastou – mas vale a pena deixar-se conduzir pelas viagens do filme e entrar no ritmo alucinógeno que ele propõe. Além de provar competência na área, o arsenal visual também se coloca como uma fuga do lugar-comum para ilustrar um tema bem clichê – o amor; porque no fundo, o filme é uma prazerosa comédia romântica. Sonhando Acordado abastece muitas e muitas resenhas e é por isso que pretendo voltar a ele, em breve.

A sessão seguinte foi uma surpreendente comédia dramática, com toques de humor negro. No canadense Sobrevivendo à Minha Mãe (Surviving My Mother), de Émile Gaudreault, os diálogos são tão afinados e diretos que dá vontade de anotar cada fala durante a sessão. De alguma maneira este filme lembra, em certos momentos, o clima de Flores Partidas, mas com argumento totalmente diferente – aqui a narrativa trata da relação entre mães e filhas. Clara, a personagem central do filme, é filha na primeira parte e mãe na segunda. Como filha, tem de lidar com a doença que consome sua irônica e ranzinza mãe transformando-a na “mulher-amarela” – o câncer acaba atingindo o pâncreas de sua mãe na fase terminal. É nesta parte do filme onde estão os melhores diálogos. Na segunda parte, Clara é a mãe que tem que lidar com uma triste realidade na relação com sua filha – enquanto preocupava-se com a mãe doente, a filha encontrou nas relações sexuais com homens casados, desconhecidos e até um padre, a fuga daquela casa que “cheirava à morte”. A mãe de Clara, antes de morrer, confessa que nunca chegou a conhecer a fundo sua filha; e é isso que Clara passa a fazer – buscar conhecer sua filha profundamente. O filme arranca gargalhadas nos diálogos; lágrimas ao ensaiar um triste final; e termina com um efusivo aplauso. O roteiro é esperto e poderia dar margem a três filmes diferentes, mas foram muito bem compilados neste longa canadense. Torço para que entre em cartaz.

O alemão Irmãs Pertubadas (Schwesterherz), de Ed Herzog, poderia ter sido um filme melhor se a qualidade da cópia tivesse ajudado. O formato digital pesou contra esta história sobre duas irmãs que buscam se conhecer durante as férias. A mais velha é workhoolic, trabalha com eventos e começa a entrar numa crise de meia-idade. A mais nova está no fim da adolescência e na descoberta da juventude. Uma aprende com a outra até que uma fatalidade tenta separar as duas. Como a qualidade do filme era ruim, o centro das atenções recai sobre o roteiro, que não passa do teste no originalidade.

O simpático e japonês Hula Girls, de Lee Sang-il, também pecou pela qualidade da cópia, no entanto, aqui a história segurou o filme. A linha narrativa da película se encaixa na lista de filmes chineses sobre crianças que surpreendem adultos com histórias edificantes, mas, a simpatia do elenco e o inusitado argumento da história salvam o diretor. Numa vila mantida por uma mina de carvão no interior do Japão, um novo empreendimento é planejado – um resort Havaiano. A população local não aprova a maluca idéia, até porque o tal empreendimento irá tirar o emprego de muita gente e, para piorar a situação, para o lançamento do tal empreendimento a idéia é produzir uma apresentação de hula-hula com dançarinas locais. O desafio na história é trazer idéias “modernas” para vila, além de conseguir treinar as meninas a tempo da grande estréia. O mais interessante de tudo isso é que a história é baseada em fatos reais.

O dia termina com uma bela surpresa chamada Entrevista (Interview). O diretor é o consagrado ator Steve Buscemi que, entre outros filmes, estava no Cães de Aluguel de Tarantino; aqui ele entrega o seu terceiro longa. O argumento é simples: a entrevista de um jornalista, correspondente internacional, com uma sexy atriz de filmes B e seriados melados. O jornalista caiu de pará-quedas na entrevista mas têm de levar para seu editor alguma história – a qualquer preço. A atriz aproveita-se da situação para exercitar o seu poder de manipulação. Os diálogos são ácidos e o argumento se segura mesmo diante dos parcos recurso do enredo – um apartamento e duas pessoas. Foi uma bela supresa para concluir o dia.

Ainda havia a sessão de À Prova de Morte, que para quem ainda não sabe, é o novo de Quentin Tarantino – mas vai ficar para outra sessão.

Bom, chega por agora porque o post ficou longo demais, não acham?

P.S.: Como costuma finalizar um amigo em seu blog: na minha vitrola Björk, em Debut.

Clube do Livro

por Polyana Ramos 13:45

 Seis livros. Seis pessoas. Seis meses e milhares de desencontros e dúvidas em uma comédia dramática escrita e dirigida pela roteirista de Memórias de uma Gueixa, Robin Swicord, em seu primeiro longa-metragem. Baseado em um livro homônimo de Karen Joy Fowler, a obra gira em torno de pessoas cujas vozes turbulentas gritam em uníssono a busca por uma razão de vida. Desastrados em suas fraquezas, aparecem nas cenas iniciais como vítimas de seus rumos, formando todos diversos desejos e um único sentido: são fortes amantes da obra de Jane Austen.

Reunidos por circunstâncias casuais e amizades longevas, cinco mulheres e um homem – Jocelyn, Allegra, Prudie, Sylvia, Bernadette e Grigg – decidem formar um clube de leitura das obras de Jane Austen. No clube, cada um fica responsável por um romance e, mês a mês, seguimos o rumo de desenvolvimento das personagens ao longo dos dias, na seqüência das obras Emma, Mansfield Park, Pride and Prejudice, Northanger Abbey, Sense and Sensibility e Persuasion. As leituras vão se transformando em campos minados ao passo que as histórias da autora vão ressonando como vida real na trajetória de cada um dos participantes.

Em um momento clímax do filme, Emily Blunt (em excelente desempenho) deve decidir o destino de suas ações quando vê no sinalizador de pedestres a mensagem “WHAT JANE WOULD DO?” ao invés de “WALK”. Ela está entre os limites de atravessar uma fraqueza em prol de uma atitude sem RAZÃO, mas acaba trilhando pelos desvelos da SENSIBILIDADE.

O Clube de leitura de Jane Austen (The Jane Austen Book Club) é um filme simples e despretensioso e faz as vezes de portador das bandeiras que balançam no alto pelas guerras mas encontram porto seguro no reencontro e na aceitação: do século XIX ao século XXI…em prol da vitória do amor.

De volta à infância

por Edemilson Morais 13:30

Depois de esbarrar com minha sacola barulhenta em várias pessoas na Paulista, fui para o HSBC Belas Artes para as sessões de sábado. Mas, como ainda era cedo, aguardei sentado, consultando a programação do dia seguinte. O lugar que escolhi para aguardar era próximo à fila de outro filme em cartaz neste cinema e, por isso, acabei ouvindo as conversas entre as senhoras que aguardavam a sessão de um filme em cartaz: “Nossa será que esses jovens gostam mesmo de Piaf?”

Que pensam os jovens? Como vêem o mundo os ainda mais jovens? A infância foi o tema central do trio de filmes que assisti no sábado.

– “Sanne, desce lá para deixar o papai feliz porque ele está chorando de novo”, pede insistentemente seu irmão de 11 anos.

– “Não vou descer nunca mais”, recusa a garota de 14 anos.

– “Se ele continuar triste, vai querer se suicidar de novo e, se você não descer, eu desço”. A garota então tira a roupa e desce.

A Arte das Lágrimas (Kunsten At Graede I Kor), filme dinamarquês de um diretor estreante em longa-metragem, Peter Schonau Fog, aborda a fundo às questões de uma família do interior através das percepções de um garoto de 11 anos. Neste drama sem muitas surpresas, mas com bela fotografia, Allan, o irmão caçula de uma família de 3 irmãos, faz de tudo para deixar seu pai feliz, e com isso, contribuir para o bem estar de sua família. Para o garoto, o pai é a grande referência e a perda dele seria algo impensável. Ao longo do filme, entretanto, o garoto começa a questionar-se e percebe, enfim, como todos na família são infelizes justamente por culta do pai – um irmão deixou a casa e a irmã acabou sendo internada num hospício. A melhor cena do filme fica para a última parte, quando, em mais uma de suas ameaças de suicídio para chamar a atenção, o pai passa a ser questionado pelo garoto. Esta cena e a razão que levou-se a ela, acaba por tirar o pai de casa, fazendo o garoto descobrir que sua grande referencia, na verdade, é a sua mãe.

E foi na infância que “Do Jardim” e “Do Pincel” se conheceram. No francês Conversas com o Meu Jardineiro (Dialogues Avec Mon Jardinier), de Jean Becker, um pintor, o sempre presente Daniel Auteuil, cansado de sua vida na cidade, parte em busca de inspiração na antiga casa de sua família no interior. Para ajudar na casa, o pintor contrata um jardineiro que, graças ao acaso, é um ex-amigo de farras da escola. O encontro, mote do filme, acaba por mudar a percepção dos dois que, a partir daí, descobrem um novo mundo de percepções. O filme tem diálogos interessantes, o que é de se esperar de um filme chamado “Conversas…”, mas pára por aí e não sai do lugar-comum: amigos que se reencontram, se descobrem, mudam até uma fatalidade aparece para separá-los. É um filme correto, que nos faz pensar “o fizemos até aqui” mas que não chega a surpreender.

O filme mais interessante de sábado ficou para o final – o também francês Infâncias (Enfances) de Yann Le Gal, Isild Le Besco, Joana Hadjithomas & Khalil Joreige, Corinne Garfin, Ismaël Ferroukhi, Safy Nebbou. O filme se compõe de curtas-metragens realizados por jovens diretores franceses e partiu de uma grande idéia – retratar lembranças marcantes da infância de destacados diretores de cinema. O que torna o filma ainda mais interessante, além do argumento, é que a direção dos curtas busca fazer referência ao estilo do diretor, tornando a sessão um jogo de adivinhação já que o diretor retratado só é enunciado no final. De Fritz Lang presenciamos sua relação com a mãe judia; a relação com a mãe também está nos trechos de Orson Welles, no qual ele tenta manter sua mãe viva através do olhar e de Alfred Hitchcock na complicada relação com sua autoritária mãe, capaz de queimar sua coleção de musas do teatro e castigá-lo por qualquer ato que ela entenda como sendo de perversão; do grandalhão garoto Jacques Tati nos divertimos com um episódio durante sua passagem pela escola; com o pré-adolescente burguês Jean Renoir fazemos uma viagem ao campo e as surpresas que este ambiente revela; e, do garotinho Ingmar Bergman temos a história mais marcante do filme – as mudanças e questionamentos que a chegada de uma irmã trás à família. O forte apelo comercial de Infâncias provavelmente o colocará em circuito comercial. Os altos-e-baixos de filme com vários diretores, como este, não impede que Infâncias seja imperdível.

A infância e a família tomou conta do sábado e também deu as caras no domingo, tema do meu próximo post.

Crônica de um sábado de sol

por Edemilson Morais 13:06

Sábado, 20 de outubro, Avenida Paulista, 2 horas da tarde.

Ao contrário do que só pode imaginar, no final de semana o vai-e-vem de pessoas na calçada não é menor do que nos dias comerciais. Mas hoje é diferente e nesta multidão de gente heterogênea que se esbarra, um detalhe é comum à maioria – uma sacolinha transparente (e barulhenta) com um logotipo circular e vermelho. Sim, o público que lota a Paulista até o final de mês é o público da 31a Mostra.

sacola 

E entre esta multidão de pessoas, lá estava eu. Atrasado. Quis me antecipar e acabei me atrasando nos preparativos. A meta de 5 filmes, já iria cair para 4. Mas antes da sessão, precisava trocar os ingressos para o dia seguinte no Conjunto Nacional. Nada de surpresas por lá, apenas a longa fila de pessoas e suas credenciais. Enquanto a fila andava, resolvi retirar meu kit – a bela sacola barulhenta, um bem cuidado catálogo pesado, um bonito pôster desajeitado de se levar e o guia resumido, a ferramenta essencial para essas duas próximas semanas. O tempo foi mais rápido do que a fila e lá se foi mais uma sessão perdida. Agora a conta do dia ficaria em 3 filmes. O jeito é se conformar e assumir que se trata de um aquecimento.

Como perdi a sessão das 14h, poderia me organizar melhor até o próximo filme. Cada um se programa à sua maneira. O meu é bem simples – tento otimizar o máximo o horário e evitar idas e vindas de uma sala à outra. Assim, a correria é menor e o número de filmes vistos é maior. O volume de filmes não quer dizer qualidade, mas representa variedade. Errar na escolha, assistir à filmes ruins e estranhos faz parte do processo, assim como se surpreender com um belo filme numa sessão com apenas 10 pessoas.

Como queria ver Infâncias às 20h30 no HSBC Belas Artes, também troquei os ingressos para as duas sessões anteriores. Isso quer dizer que poderia ficar na sala durante 3 filmes, sem me incomodar com filas ou ansiedade para saber se conseguirei um lugar bom para sentar. Na Mostra a escolha do lugar é de grande importância; uma cabeça na frente e você realmente não entenderá o que se passa na tela. Uma criança falando russo? Só com a tradução simultânea da mocinha com o laptop que fica passando diálogo a diálogo a tradução num pequena tela abaixo da grande tela.

E aí, como foram os filmes, todo mundo pergunta. Com 3 filmes seguidos e numa mesma sala – A Arte das Lágrimas, Conversas com meu Jardineiro e Infâncias – dá para pensar numa sessão temática: infância e amizade. No próximo post, escreverei sobre os filmes, porque hoje a meta é de 6 filmes e preciso correr para não perder nenhuma sessão. Ah, e o domingo também é de sol. Até.