Boas escolhas no Cinesesc

por Edemilson Morais 5:19

Domingo, terceiro dia de Mostra. Cerca de 180 filmes já foram exibidos e eu entrava na sala para assistir à minha quarta sessão. Ao final do dia, completaria 7 filmes da minha maratona.

Para a missão do dia escolhi o CineSesc, um dos melhores cinemas da cidade – não porque tem um barzinho dentro da sala, mas porque a tela é grande e as poltronas permitem assistir ao filme de maneira confortável. Cheguei em cima da hora para a primeira sessão do dia e me deparei com uma multidão que atrasava o início da projeção – todos estavam lá para ver Michel Gondry que, definitivamente conquistou uma legião de fãs, seja pelos clipes da Björk, seja por seus argumentos originais – Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças permeia o top list de muita gente, incluindo o meu.

O título do novo trabalho de Gondry entrega o filme – Sonhando Acordado (The Science of Sleep) narra a história de um personagem que mescla o seu dia-a-dia aos sonhos, criando fantásticas parábolas visuais. O centro do filme está no personagem de Gael Garcia Bernal, hit do momento, diga-se de passagem. Stéphane, o jovem ilustrador, muda-se para Paris em busca de um trabalho criativo e acaba se deparando com um cargo burocrático à la The Office. Mas antes que decidisse fugir de Paris, o personagem se depara com Stéphanie, a bela vizinha. A paixão, ou a dúvida sobre ela, cria um mundo paralelo e o personagem de Gael já não consegue mais distinguir o real do sonho. A maneira Gondry de filmar testa, a todo o momento, a linguagem e não perde a oportunidade da auto-referência. O estilo vídeo-clipe pode afastar alguns – como de fato afastou – mas vale a pena deixar-se conduzir pelas viagens do filme e entrar no ritmo alucinógeno que ele propõe. Além de provar competência na área, o arsenal visual também se coloca como uma fuga do lugar-comum para ilustrar um tema bem clichê – o amor; porque no fundo, o filme é uma prazerosa comédia romântica. Sonhando Acordado abastece muitas e muitas resenhas e é por isso que pretendo voltar a ele, em breve.

A sessão seguinte foi uma surpreendente comédia dramática, com toques de humor negro. No canadense Sobrevivendo à Minha Mãe (Surviving My Mother), de Émile Gaudreault, os diálogos são tão afinados e diretos que dá vontade de anotar cada fala durante a sessão. De alguma maneira este filme lembra, em certos momentos, o clima de Flores Partidas, mas com argumento totalmente diferente – aqui a narrativa trata da relação entre mães e filhas. Clara, a personagem central do filme, é filha na primeira parte e mãe na segunda. Como filha, tem de lidar com a doença que consome sua irônica e ranzinza mãe transformando-a na “mulher-amarela” – o câncer acaba atingindo o pâncreas de sua mãe na fase terminal. É nesta parte do filme onde estão os melhores diálogos. Na segunda parte, Clara é a mãe que tem que lidar com uma triste realidade na relação com sua filha – enquanto preocupava-se com a mãe doente, a filha encontrou nas relações sexuais com homens casados, desconhecidos e até um padre, a fuga daquela casa que “cheirava à morte”. A mãe de Clara, antes de morrer, confessa que nunca chegou a conhecer a fundo sua filha; e é isso que Clara passa a fazer – buscar conhecer sua filha profundamente. O filme arranca gargalhadas nos diálogos; lágrimas ao ensaiar um triste final; e termina com um efusivo aplauso. O roteiro é esperto e poderia dar margem a três filmes diferentes, mas foram muito bem compilados neste longa canadense. Torço para que entre em cartaz.

O alemão Irmãs Pertubadas (Schwesterherz), de Ed Herzog, poderia ter sido um filme melhor se a qualidade da cópia tivesse ajudado. O formato digital pesou contra esta história sobre duas irmãs que buscam se conhecer durante as férias. A mais velha é workhoolic, trabalha com eventos e começa a entrar numa crise de meia-idade. A mais nova está no fim da adolescência e na descoberta da juventude. Uma aprende com a outra até que uma fatalidade tenta separar as duas. Como a qualidade do filme era ruim, o centro das atenções recai sobre o roteiro, que não passa do teste no originalidade.

O simpático e japonês Hula Girls, de Lee Sang-il, também pecou pela qualidade da cópia, no entanto, aqui a história segurou o filme. A linha narrativa da película se encaixa na lista de filmes chineses sobre crianças que surpreendem adultos com histórias edificantes, mas, a simpatia do elenco e o inusitado argumento da história salvam o diretor. Numa vila mantida por uma mina de carvão no interior do Japão, um novo empreendimento é planejado – um resort Havaiano. A população local não aprova a maluca idéia, até porque o tal empreendimento irá tirar o emprego de muita gente e, para piorar a situação, para o lançamento do tal empreendimento a idéia é produzir uma apresentação de hula-hula com dançarinas locais. O desafio na história é trazer idéias “modernas” para vila, além de conseguir treinar as meninas a tempo da grande estréia. O mais interessante de tudo isso é que a história é baseada em fatos reais.

O dia termina com uma bela surpresa chamada Entrevista (Interview). O diretor é o consagrado ator Steve Buscemi que, entre outros filmes, estava no Cães de Aluguel de Tarantino; aqui ele entrega o seu terceiro longa. O argumento é simples: a entrevista de um jornalista, correspondente internacional, com uma sexy atriz de filmes B e seriados melados. O jornalista caiu de pará-quedas na entrevista mas têm de levar para seu editor alguma história – a qualquer preço. A atriz aproveita-se da situação para exercitar o seu poder de manipulação. Os diálogos são ácidos e o argumento se segura mesmo diante dos parcos recurso do enredo – um apartamento e duas pessoas. Foi uma bela supresa para concluir o dia.

Ainda havia a sessão de À Prova de Morte, que para quem ainda não sabe, é o novo de Quentin Tarantino – mas vai ficar para outra sessão.

Bom, chega por agora porque o post ficou longo demais, não acham?

P.S.: Como costuma finalizar um amigo em seu blog: na minha vitrola Björk, em Debut.


6 comentários

  1. Alexandre Fugita disse:

    Bom, só posso dizer que preciso arranjar um tempo para ir à Mostra. Fiquei com vontade de ver todos esses filmes, principalmente o Sobrevivendo à Minha Mãe, devido ao humor refinado que vc informa ter detectado.

  2. Polyana Ramos disse:

    Maravilhosas escolhas, hein!! Irmãs perturbadas é um dos filmes que pretendo ver!!…comentários excelentes os seus!

  3. Paulo Marinho disse:

    Salve, salve, pessoal! Ed, Poly! Muito legal a renovação do CinemaLido, acompanharei a Mostra por aqui! Sorte e sucesso a todos nessa nova fase!

    Abraços

  4. Alexandre Inagaki disse:

    Gostei do novo Michel Gondry com ressalvas. O estilo visual permanece magnífico, como era de se esperar do melhor diretor de videoclipes de todos os tempos. Mas a trama me soou confusa demais, por vezes priorizando certas pirotecnias visuais em detrimento do enredo, como uma espécie de David Lynch pós-modernizado. Minha cotação: 7 de 10 florestas em um barquinho.

  5. Edemilson Morais disse:

    Então, Alexandre, acho que o ponto fraco deste novo Goldry é que o filme se esgota antes de chegar ao final, o que o torna repetitivo na última parte. O roteiro é mais confuso na parte inicial, quando ainda não se entende o que acontece. Depois que o personagem central é apresentado como ilustrador e sonhador, as viagens visuais fazem mais sentido, assim como o ritmo do filme. Mesmo com estas ressalvas, acho que o filme tá bem acima da média, não?

  6. Alexandre Inagaki disse:

    Edemilson, eu lhe diria que é um filme acima da média, ok. Mas “bem acima” mesmo é o “Brilho Eterno”, cujo roteiro se sobrepõe às experimentações visuais. Discordo de você quanto às confusões de roteiro: para mim o filme embola na metade final, quando há cenas como a da festa no bar em que o personagem de Garcia Bernal se embebeda em que o amálgama entre sonhos e realidade embola o meio de campo, e perde ritmo, só recuperado no final, com o afiado diálogo de despedida entre os personagens de Gael e Charlotte Gainsbourg. Aliás, independentemente do personagem principal ser um artista, não encontrei em “Sonhando Acordado” nenhuma seqüência com o impacto visual da cena em que Jim Carrey e Kate Winslet deitam-se em cima do gelo. Creio que até o primeiro longa do francês, “Natureza Quase Humana”, é mais coeso e bem-resolvido do que “The Science of Sleep”. Mas Gondry é Gondry, mesmo em um trabalho menor.

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