De volta à infância

por Edemilson Morais 13:30

Depois de esbarrar com minha sacola barulhenta em várias pessoas na Paulista, fui para o HSBC Belas Artes para as sessões de sábado. Mas, como ainda era cedo, aguardei sentado, consultando a programação do dia seguinte. O lugar que escolhi para aguardar era próximo à fila de outro filme em cartaz neste cinema e, por isso, acabei ouvindo as conversas entre as senhoras que aguardavam a sessão de um filme em cartaz: “Nossa será que esses jovens gostam mesmo de Piaf?”

Que pensam os jovens? Como vêem o mundo os ainda mais jovens? A infância foi o tema central do trio de filmes que assisti no sábado.

– “Sanne, desce lá para deixar o papai feliz porque ele está chorando de novo”, pede insistentemente seu irmão de 11 anos.

– “Não vou descer nunca mais”, recusa a garota de 14 anos.

– “Se ele continuar triste, vai querer se suicidar de novo e, se você não descer, eu desço”. A garota então tira a roupa e desce.

A Arte das Lágrimas (Kunsten At Graede I Kor), filme dinamarquês de um diretor estreante em longa-metragem, Peter Schonau Fog, aborda a fundo às questões de uma família do interior através das percepções de um garoto de 11 anos. Neste drama sem muitas surpresas, mas com bela fotografia, Allan, o irmão caçula de uma família de 3 irmãos, faz de tudo para deixar seu pai feliz, e com isso, contribuir para o bem estar de sua família. Para o garoto, o pai é a grande referência e a perda dele seria algo impensável. Ao longo do filme, entretanto, o garoto começa a questionar-se e percebe, enfim, como todos na família são infelizes justamente por culta do pai – um irmão deixou a casa e a irmã acabou sendo internada num hospício. A melhor cena do filme fica para a última parte, quando, em mais uma de suas ameaças de suicídio para chamar a atenção, o pai passa a ser questionado pelo garoto. Esta cena e a razão que levou-se a ela, acaba por tirar o pai de casa, fazendo o garoto descobrir que sua grande referencia, na verdade, é a sua mãe.

E foi na infância que “Do Jardim” e “Do Pincel” se conheceram. No francês Conversas com o Meu Jardineiro (Dialogues Avec Mon Jardinier), de Jean Becker, um pintor, o sempre presente Daniel Auteuil, cansado de sua vida na cidade, parte em busca de inspiração na antiga casa de sua família no interior. Para ajudar na casa, o pintor contrata um jardineiro que, graças ao acaso, é um ex-amigo de farras da escola. O encontro, mote do filme, acaba por mudar a percepção dos dois que, a partir daí, descobrem um novo mundo de percepções. O filme tem diálogos interessantes, o que é de se esperar de um filme chamado “Conversas…”, mas pára por aí e não sai do lugar-comum: amigos que se reencontram, se descobrem, mudam até uma fatalidade aparece para separá-los. É um filme correto, que nos faz pensar “o fizemos até aqui” mas que não chega a surpreender.

O filme mais interessante de sábado ficou para o final – o também francês Infâncias (Enfances) de Yann Le Gal, Isild Le Besco, Joana Hadjithomas & Khalil Joreige, Corinne Garfin, Ismaël Ferroukhi, Safy Nebbou. O filme se compõe de curtas-metragens realizados por jovens diretores franceses e partiu de uma grande idéia – retratar lembranças marcantes da infância de destacados diretores de cinema. O que torna o filma ainda mais interessante, além do argumento, é que a direção dos curtas busca fazer referência ao estilo do diretor, tornando a sessão um jogo de adivinhação já que o diretor retratado só é enunciado no final. De Fritz Lang presenciamos sua relação com a mãe judia; a relação com a mãe também está nos trechos de Orson Welles, no qual ele tenta manter sua mãe viva através do olhar e de Alfred Hitchcock na complicada relação com sua autoritária mãe, capaz de queimar sua coleção de musas do teatro e castigá-lo por qualquer ato que ela entenda como sendo de perversão; do grandalhão garoto Jacques Tati nos divertimos com um episódio durante sua passagem pela escola; com o pré-adolescente burguês Jean Renoir fazemos uma viagem ao campo e as surpresas que este ambiente revela; e, do garotinho Ingmar Bergman temos a história mais marcante do filme – as mudanças e questionamentos que a chegada de uma irmã trás à família. O forte apelo comercial de Infâncias provavelmente o colocará em circuito comercial. Os altos-e-baixos de filme com vários diretores, como este, não impede que Infâncias seja imperdível.

A infância e a família tomou conta do sábado e também deu as caras no domingo, tema do meu próximo post.

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