Pequenas histórias?

por Edemilson Morais 10:47

Pequenas Histórias é o título de um filme nacional que ontem vi por acaso. Como estava atrasado para um outro filme , resolvi entrar na sessão deste nacional, tendo como referência apenas o título. O filme não chega a ser ruim, se parece apenas com um especial de fim de ano para TV. São várias histórias sendo narradas, de conto de natal com Papai Noel à história de pescador. O filme é narrado por Marieta Severo e tem no elenco Paulo José, Patrícia Pillar e Gero Camilo.

Pequenas Histórias pode até ser o nome deste filme nacional. Para mim, pequenas histórias são todos os filmes. É o cinema.

Amo a Mostra porque ela me leva à pequenas histórias ao redor do mundo. Num mesmo dia viajo, conheço lugares, personagens, me emociono, me divirto e também me aborreço. Num mesmo dia, no intervalo de algumas horas, conheço muitas pequenas histórias.

Eduardo Coutinho também ama pequenas histórias e faz de seus filmes um cantinho para que as pessoas possam contá-las. Jogo de Cena é um filme de pequenas histórias que emocionam enormemente. Um anúncio busca recrutar pessoas para contarem suas histórias em um documentário. Muita gente se inscreve, algumas são selecionadas e no palco de um teatro vazio, pessoas contam para Coutinho e para nós, suas pequenas grandes histórias. Coutinho vai além e, através destas pequenas histórias, dá um nó na realidade – entre aquela gente ali no palco, há atrizes infiltradas que buscam representar pequenas histórias de pessoas reais. Trata-se de um de exercício? Não somente. Atrizes calejadas como Fernanda Torres, Andréa Beltrão e Maríllia Pêra confessam que as pequenas histórias de pessoas reais são mais difíceis de representar do que pequenas histórias de pessoas que só existem nas cabeça de roteiristas. As pequenas histórias de Jogo de Cena, não são nada pequenas.

Mas em Jogo de Cena um detalhe chama a atenção: somente personagens femininos participam das conversas com Coutinho. Apenas mulheres têm pequenas histórias para contar?

No mexicano Dos Abrazos há duas pequenas histórias separadas por dois abraços. Na primeira, um jovem garoto acha refúgio na paixão por uma garota, caixa de supermercado. A fuga deste garoto, mesmo que apenas subjetiva, é de seu lar, de seu irmão doente. No abraço entre o garoto e a garota que fecha esta primeira pequena história, um taxista passa e assiste a cena, tentando evitá-la. O taxista busca fugir da culpa por ter abandonado um lar com mulher e filhos. O refúgio do taxista é o anonimato das ruas até que um passageiro resolve falecer em seu táxi, obrigando-o a assumir uma identidade, nem que seja de alguém que ele não é. Esta pequena história também termina num abraço.

Pequenas histórias podem terminar num abraço, podem ser alegres, tristes, podem ser pessimistas ou não. Os Otimistas é um filme sérvio com algumas pequenas histórias, pinceladas à humor-negro, sobre dificuldades. A inspiração para estas histórias é um romance satírico cujo mote é: ”Otimismo é insistir que tudo está bem, quando tudo está mal”. Num dos episódios, famílias tentam lidar com lares destruídos e um hipnotizador chega para ajudar – o segredo é ser otimista. Noutro episódio, o pai tem sua filha estuprada pelo seu chefe numa vila onde manda quem tem mais. Otimismo para família deste pai é continuar com a vida que levavam. No episódio seguinte outro pai, dono de um matadouro, não sabe mais o que fazer com o jovem filho viciando em matar porcos e outros bichos. A ajuda médica vem para dar otimismo mas complica ainda mais a história. Na história seguinte um garoto perde o dinheiro que era para o velório de seu pai numa máquina de jogo e vê sua salvação na parceria com uma senhora que, depois de ser desenganada pelos médicos, passa a ter grande sorte nestas máquinas de azar. A senhora, no entanto, falece antes mesmo do jovem concretizar o sonho de tirar a família do buraco. O último episódio começa num ônibus onde todos cantam puxados por um líder que prega o otimismo. Ali há pessoas com pequenas histórias tristes em busca de uma salvação – uma garota cega, um rapaz com câncer e tantos outros dramas. Todos naquele ônibus buscam a nascente que os curará de qualquer mal. Quando a excursão revela-se um golpe, as pessoas e suas pequenas histórias tentam manter o otimismo e partem, por conta própria, em busca da nascente ou algo que os possa curar. Encontram um lago de fezes onde nadam e se curam. Pequenas histórias de otimismo onde a realidade insiste em se fazer presente.

A Retirada, de Amos Gitaï, fala de algumas pequenas histórias em meio a uma grande e complexa história, o conflito entre judeus e palestinos num momento crítico – a retirada, à força, de israelenses dos assentamentos na Faixa de Gaza. Em meio a isso, há a pequena história de Ana, personagem de Juliette Binoche que depois do falecimento do pai, tem de enfrentar seu passado e é obrigada a reencontrar a filha, que um dia foi abandonada e que agora vive num dos assentamentos a serem ocupados. Ana adentra, com sua pequena história, uma história que parece não ter fim.

A pequena história de Ana e Amos Gitaï em meio a uma grande história revelou um belo filme. Mas a relação não é lógica. Para gerar um grande um filme, uma pequena história tem de ir além, tem de conquistar os olhares do público; tem de conquistar os olhares dos críticos. O Cinema dos Meus Olhos faz uma homenagem às pequenas histórias que compõem a Mostra e confronta críticos e cineastas, “dois lados de uma mesma criação artística”. O filme, repleto de closes nos olhos buscando o reflexo da tela de projeção, resulta em interessantes discussões numa merecida homenagem a estas duas semanas de maratona que me levam a visitar tantas pequenas histórias.

Pequenas histórias? Para quê? Num dos debates que compõem a Mostra, Eduardo Coutinho disse acreditar que contar histórias faz bem às pessoas. E deve fazer mesmo – tanto às que contam, como às que assistem. Viva ao cinema, viva às pequenas e grandes histórias.

//// Filmes que vi na 31a Mostra e fazem parte deste texto:

PEQUENAS HISTÓRIAS, de Helvécio Ratton (Brasil)

JOGO DE CENA, de Eduardo Coutinho (Brasil)

DOS ABRAZOS, de Enrique Begné (México)

OS OTIMISTAS (Optimisti), de Goran Paskaljevic (Sérvia)

A RETIRADA (Disengagement), de Amos Gitaï (Israel, França, Alemanha, Itália)

O CINEMA DOS MEUS OLHOS, de Evaldo Mocarzel (Brasil)


1 comentário

  1. Alessandro de Paula disse:

    Vou ver Os Otimistas amanhã. :-)

    Pelo que li, devo ficar otimista, né?

    Abraço!

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