O que será que o David Lynch cheirou desta vez?

por Alexandre Fugita 1:10

Há cerca de três semanas fui assistir com amigos ao último filme do David Lynch, o Império dos Sonhos (Inland Empire, EUA, 2006, 180 min). Sério, não entendi nada mas, claro, isso já era esperado. Muitos dos filmes deste diretor enigmático exigem atenção extrema ou rever a fita algumas vezes.

Até onde eu entendi, existe uma história de uma atriz em crise existencial (Laura Dern), uma sala com pessoas fantasiadas de coelho e risadas aleatórias, e muitas cenas escuras que não usam o recurso da noite americana e portanto não passam de cenas escuras com alguns sons e falas, ou seja, sem imagem.

Não existe qualquer seqüência lógica na história, se é que existe uma. Segundo críticas que li, o diretor filmava a esmo cenas aqui e acolá na esperança de criar uma obra coesa. Pra mim não há coerência e sim muito humor nas coisas nonsense que acontecem na tela do cinema. Risadas não faltaram nestes momentos absurdos.

Pelo menos desta vez a loira não virou morena e nem a mulher virou um cara. Mas o fato de ninguém entender os filmes dele faz com que na tradução brasileira seus filmes invariavelmente contenham a palavra “sonho” no título, mesmo não sendo essa a tradução literal.


3 comentários

  1. Bibi disse:

    Você sabe que as cenas das pessoas vestidas de coelhos são da série do site dele “Rabbits” e o que o humor dela se faz pela estranhesa, assim como boa parte dos filmes dele. não sabe? E que os filmes dele são cheios de alto referências, que eles misturam sonhos dentro de sonhos cheios de metáforas e que para eles são uma outra expressão de arte e obras abertas, significando que cada pessoa pode escolher o melhor significado para seus filmes, não sabe? Bom, a minha pergunta é: você decifrou Cidade dos Sonhos a sua maneira? Se sim o caminho para esse fica mais fácil, mas não é para achar uma explicação lógica e muito menos achá-la a uma primeira olhada, é para procurar os mais diversos significados e escolher aquele que mais gostar.

    No Mulholand Drive ninguém vira ninguém na minha interpretação, ela apenas vê uma realidade alternativa e distorce o passado, confundindo com seus pesadelos.

    Usaram sonho por causa da semelhança de sonhos dentro de histórias com o Mulholand Drive, que também ganhou “sonho” no título.

  2. Alexandre Fugita disse:

    Oi Bibi!

    Sabe, escrevi este texto faz umas duas semanas, mas estava com “medo” de publicá-lo devido às opiniões contidas nele. Claro, sei da série Rabbits mas omiti propositalmente e tinha certeza que alguém iria questionar isso!

    Uma amiga minha disse que viajou total dentro do Inland Empire e adorou o filme. Eu talvez estava não apto a absorver um filme do David Lynch quando assisti… :-)

    Abraços e valeu pelo comentário!

  3. Vulgo Dudu disse:

    Eu fecho com Glauber Rocha, que dizia que a linguagem cinematográfica é muito rica para simplesmente contar histórias. Acontece que a maioria das pessoas está acostumada a um filme com início, meio e um fim que explique os outros dois. Pode perceber: na maioria das vezes, quando uma pessoa diz que não gostou do filme a queixa é de que não entendeu o final.

    Porém, nem todos os cineastas seguem essa receita de bolo. David Lynch é um deles. É um diretor que utiliza todos os recursos possíveis e mexe na estrutura narrativa como niguém. Dá textura e tonalidades ao que filma, indo completamente contra a maré. O preço que paga por isso nem é tão caro assim. É rejeitado pela maior parte do público, mas é também reconhecido como um diretor que tem sua própria grife – e que sabe tirar proveito dessa fama.

    Tanto é que, quando do lançamento de Cidade dos Sonhos, o tal filme em que a loira vira morena etc, foi pedido a ele que desse 10 pistas sobre seqüências que ajudassem a “explicar” o que filme queria dizer. Obviamente, ele escreveu 10 abobrinhas que, ridiculamente, chegaram a ser distribuídas nas salas de cinema antes das sessões (aqui no Rio teve isso).

    Não é um cinema de entretenimento, reconhecidamente. Porém, na minha opinião, é um deleite para os olhos assistir a um filme de David Lynch.

    Enfim, gosto é que nem traseiro. Cada um tem o seu.

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