Ciranda

por Edemilson Morais 13:59

Vi Ciranda em Berlim, mas gostei de Yo Soy La Juani. Gostei de Yo Soy La Juani, mas preferi O Sinal. Preferi O Sinal, mas trocaria por XXY. Ficaria com XXY se também pudesse optar por Help Me Eros. E a Ciranda não gira como deveria.

Ciranda em Berlim (Berliner Reigen) é uma roda que gira em falso. O filme alemão de Dieter Berner que “discute diferentes manifestações do amor e do sexo” é intercalado por títulos que apresentam os personagens e os dez episódios que compõem o longa. Em “O Soldado e a Prostituta” são apresentados um traficante e uma prostituta; em “O Soldado e a Donzela”, temos o traficante e uma jovem russa, e assim por diante até chegarmos ao décimo episódio que fecha o círculo. Este paralelo com a ciranda é uma artifício narrativo interessante, apesar de não ser original, que prende a atenção e gera expectativa pelo momento em que as histórias se cruzarão e, aí está o problema – as histórias mal se cruzam e, por isso, a ciranda gira em falso. O filme avança, juntamente com as expectativas, mas termina sem conseguir corresponder as elas.

Yo Soy La Juani, de Bigas Luna, é um drama espanhol sobre o mundo dos jovens do interior daquele país que gostam de carros tunados e baladas muito semelhantes ao nosso funk – o jeito de se vestirem também nos é bastante familiar. E o filme é isso. A garota do papel central tem o sonho de ser atriz em Madri. Ela viaja para lá, mas acaba voltando para ajudar os seus pais. No meio desta história, há um namorado cafajeste e uma amiga sincera e companheira. Um longa sem surpresas que talvez busque apenas retratar algum momento da Espanha atual.

O Sinal (La Señal) é um belo noir argentino co-dirigido e estrelado por Ricardo Darín, em sua estréia atrás das câmeras. O filme se passa na Buenos Aires da década de 50, envolve detetives treinados ao estilo norte-americano, muita fumaça de cigarros, uma bela morena para os essenciais closes, uma intriga que envolve mafiosos, tiros e carros antigos e, como pano de fundo, os últimos dias de Eva Perón. O filme peca apenas pelo seu ritmo lento demais para um filme que, pelo roteiro, poderia prender a atenção do começo ao fim. Direção interessante, atuações corretas, fotografia bela como deve ser, tudo embalado numa montagem um tanto quanto destoante.

XXY de Lucia Puenzo entrega o que vem sendo anunciado e faz jus aos elogios que recebe. O filme, co-produção argentina – leia-se presença de Ricardo Darín, passado em alguma praia uruguaia, é a adaptação para o cinema de um livro e trata de uma bela e sensível história sobre as diferenças. Os espectadores não ficam indiferentes durante o filme e são confrontados com as questões abertas na tela. A grande decisão da história fica sempre em suspenso e mira o espectador que tem todo o tempo do filme para refletir sobre as questões tratadas ali. Alex nasceu com as características sexuais de ambos os sexos e, agora com 15 anos, é chamada a escolher qual “caminho” seguir – até ali ela é uma garota que necessitava de remédios para controlar os hormônios masculinos. Um cirurgião é convidado a passar alguns dias na casa da família de Alex para avaliar a situação e trás consigo sua esposa e seu filho, um jovem garoto que amplia ainda mais a complexidade de qualquer decisão para Alex, para a família e para o espectador. Daqueles dias naquela casa, ninguém sairá igual: nem o cirurgião, nem sua mulher, nem o jovem garoto, nem os pais de Alex, nem mesmo os moradores daquela vila. Da aquelas horas na sala de exibição, nenhum espectador sairá com entrou.

Help Me Eros (Bang Bang Wo Ai Shen) é a estréia na direção de um dos atores preferidos de Tsai Ming-Liang, Lee Kang-Sheng, e fala sobre muitas coisas. A pessoa que sentou ao meu lado achou que falava sobre o amor moderno; o moço ao lado dela defende o tema solidão; a senhora lá da frente não deu tempo de achar nada porque saiu antes do filme terminar. Eu achei que o filme falava sobre o vazio. Os personagens do filme não se sentem completos e tão pouco sabem o que lhes faltam. Um jovem falido desistiu de tudo, exceto de sua plantação caseira de pés de maconha; uma atendente de uma central para ajuda à suicidas que se tornou gorda após casar-se com um chef de cozinha; garotas que trabalham durante a noite na rua vendendo de tudo. Estas histórias se cruzam numa tentativa de ajuda mútua: a ciranda de Taiwan que também envolve amor e sexo, como a de Berlim, começa com o jovem rapaz querendo suicidar-se e ligando para pedir ajuda à central. O filme vai além destas linhas e, para cada um que assistir, pode assumir um significado diferente.

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