Calendário marcado: Outubro

por Polyana Ramos 20:49

Eu me lembro. Outubro de 1998. Uma sessão de Velvet Goldmine, de Todd Haynes, no antigo Tom Brasil. Aquele monte de gente na fila para uma das únicas vezes em que o filme passaria muito antes de entrar em cartaz nos cinemas…eu tinha 16 anos, milhares de sonhos e um amor desesperado por filmes.

Naquela época, eu não sabia que andavam por aí pessoas que, como eu, não concebiam uma existência em que o cinema não fosse agente principal de sentido, destino e visão de vida.

Então, apareceu a Mostra de Cinema de São Paulo. Ela já estava lá há vinte anos (e eu não sabia) com seus filmes loucos, únicos, universais e impossíveis.

Ela já abrigava uma legião crescente de cinéfilos inveterados, que compravam credenciais e assistiam de três a seis filmes por dia. Ela já era as férias no mês de outubro para um bocado de apaixonados…o calendário marcado, a corrida para não perder nada, o reencontro de amigos…1998-2007 (22ª/31ª Mostra de Cinema de São Paulo) – dez anos de cartão de ponto no que é, para mim, o evento mais importante do ano. Dez anos de filmes macedônicos, georgianos, russos, iranianos, alemães, senegaleses, franceses, espanhóis, argelinos, norte-americanos, holandeses, noruegueses…ou seja, filmes que não veríamos se essa compilação babélica, multifacetada e absurda não estivesse às nossas portas como um presente de final de ano – imprescindível e babilônico, um misto de experiências densas e excêntricas.

Na Mostra de Cinema de São Paulo, já vi os piores filmes da minha vida (nunca me esqueço de uma extravagância pseudo-filosófica vinda da Geórgia, na 28ª Mostra) e também os melhores (inumeráveis inúmeros)…passei a adorar a simples sensação de entrar, às escuras, em uma sala de cinema e descobrir, aos poucos, um subseqüente e inesperado amor ou…horror!

Passados dez anos, deparo-me novamente com Todd Haynes…um Todd Haynes musical e onírico. Bob Dylan em I’m not there será para mim o que David Bowie foi naquela época de Velvet Goldmine…trilha sonora de épocas demarcantes: Bowie como início e Dylan como consolidação.


2 comentários

  1. Edemilson disse:

    … e 10 anos para começar a escrever sobre a Mostra! Mas, pela emoção do texto de estréia, valeu a espera. E vamos em frente pq a maratona só está começando.

  2. Rodrigo Rodrigues disse:

    Nossa, esse Velvet Goldmine tem uma participação da banda Placebo! Eu sempre quis ver o filme pela banda, mas não sou sempre assim.

    Festivais de cinema são fantásticos! Aqui em Goiânia eu nunca perco o Goiânia Mostra Curtas, adoro curtas e sempre no Cine Ouro, um antigo cinema restaurado no centro da cidade têm mostras de cinema de diversas partes do globo, que, como foi bem colocado, soa “babélico”, festivais babélicos! Adorei a palavra!

    O pior filme que já vi nos festivais foi um filme iraniano chamado Passageiro do Sul.

    Adorei o blog, vida longa ao mesmo!

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